segunda-feira, 26 de março de 2007

ARREBATAMENTO

::

na maioria das vezes, quando escrevo sinto-me cansada. um cansaço aprazível. talvez "cansaço" não fosse a expressão correcta. fúria. impetuosidade. o coração bate com força. sinto a mente trepar. o sangue sobe. as mãos gesticulam uma dança como se, por meio dos movimentos, pudesse encontrar a palavra destinada.

como se estivesse a correr em direcção a um objectivo inédito e de suma beleza. e que está lá, a minha espera. o desafio é conseguir lá chegar com sucesso merecido e absoluto. é só meu. porque, de forma absoluta, sou eu a criadora. lindo! imaginam esse sentimento? compartilham-no?

e que felicidade quando chego lá, no fim! euforia. plenitude. realização. completa. nunca conseguirei descrever, vez alguma, essa sensação de terminar um poema, uma prosa, ou um texto outro qualquer... deslumbramento? êxtase? trepa-me meigo pelo coração apaixonado...

depois volto ao início. acaricio a obra. é minha obra. moldo-lhe as arestas por entre os meus dedos e o dédalo dos meus sentimentos. beijo-lhe as estrofes. depois, muito intimamente, cada verso. cada palavra. cada letra. chego a tocar-lhe a alma… a minha própria. a ínfima centelha. somos uma unidade. para que fique minha obra, definitivamente. para que me pertença… não por posse simplesmente - também -, mas por felicidade, por conceber algo com um prazer indescritível. ali deixo o meu coração timbrado.
porque - e digo-o com toda a euforia e felicidade -, minhas senhoras e meus senhores, há coisas que nos estão destinadas…

::
boa tarde e bom trabalho.
::

sexta-feira, 2 de março de 2007

PENSEI ESCREVER...

pensei escrever. penso. já escrevo.
e quando digo “vou escrever”, simplesmente, vou escrever. não vejam estrapolismos ou algum outro truque que caracteriza o estado de escrita, ou o estado de “escrevência” porque não há nada disso. nem ponham nisso, tão pouco, literatura exacerbada ou palavras características, nem adequações, nem o protocolo costumeiro e vincado que se espera dos escritores.
escrever não é uma obrigação.
o escritor não é uma conveniência. muitas vezes é até inconveniente, inoportuno, incómodo e nem por isso perde perante o tal protocolo e companhia limitada. não quero ser demasiado sarcástica… deixem lá...

geralmente diz-se que os escritores mais polémicos são os mais lidos e os considerados melhores. pessoalmente, prefiro-os. não me perguntem porquê. é demasiado humano... é demasiado simples - ou talvez não - explicar. a audácia é algo intrigante e delicioso e, nessa sociedade em que estamos constantemente fartos de conformismo, a verdade, a radicalidade é um néctar precioso. sexo libidinoso. indecente. indispensável.

não sei se sou boa no que escrevo. não sou escritora. melhor, não sei se tenho esse rótulo. escrevo simplesmente, porque preciso. sempre foi uma forma de falar com um amigo impessoal, um amante com quem me encontro às escondidas. encontros rápidos mas intensos no escuro de um beco. um depositário do meu desbravamento, da minha alegria desmedida, do meu espanto, da minha indignação, das minhas contemplações e angústias. acho que, por vezes, não gosto que ele me veja as feições porque parece-me um espelho, onde as verdades me tocam como uma bola de pingue-pongue, depois de baterem na parede onde as lancei. e sei que me atingirão com a força de um chicote. isso. quando me vejo nesse espelho, estou lá. nua.

para mim, a escrita sempre foi um sexo atraente a quem não vejo o rosto e não me interessa ver. uso as palavras. não de uma forma arrogante e pretensiosa, mas porque preciso delas. o sentimento incómodo é uma consequência. insuportável, mas o preço a pagar. a verdade materializada brutaliza-me, despe-me, põe-me em carne viva. sou puritana e tenho réstias de hipocrisia.
percebem já o que quero dizer?
no entanto, nela não se vê conselhos, nem reprovações, nem censuras, nem rejeição ou recusa. por isso destravo-me. moderadamente. nunca fui muito alardista. pelo menos, não excessivamente. nunca muito comedida.
as vezes assusto-me.

nunca publiquei nada (assim, em obras escritas. livros, etc.). ainda penso o sentido de publicar. para além de muita coisa, tenho que pensar esse conceito, as suas finalidades e as suas consequências. não que eu não tenha confiança suficiente nos meus sentimentos – sim, porque o que escrevo são sentimentos falsos ou verdadeiros – ou talvez sim, mas numa outra perspectiva “o poeta é bom fingidor...”. ou talvez sim, que rejeitem os sentimentos que dentro de mim manifestam-se de maneira gritante… (meu Deus, manifestam-se, como um estrondo, por vezes…) mas reparem, não só.

o que me assusta é olharem-me nua. o facto de que as pessoas possam ter acesso a sentimentos íntimos perturba-me. o exposição mortifica-me. compreenderão? entenderão os motivos? conseguirão entranhar totalmente? pergunto-me. pergunto. percebem o que quero dizer?

li algures, certa vez, uma metáfora que diz que quando publicamos algo, estamos a lançar cordeiros aos lobos. tenho a crença, talvez um bocado derrotista – contradição, porque costumo ser desmedidamente optimista – de que quando conservamos os sentimentos dentro de nós, estão mais protegidos... nós estamos mais protegidos...
apesar de tudo, de publicar ou não, apesar das coisas fora da minha redoma, apesar do protocolo, continuarei a escrever. não pelo motivo único e exclusivamente de publicar, mas porque preciso desesperadamente deste amante, desta saída fortuita.